A ampliação da disponibilidade de gás natural no Estado do Rio de Janeiro abre caminho para uma nova etapa de desenvolvimento industrial, com possibilidade de colocar Macaé entre os principais polos de investimentos do setor de fertilizantes no país. O município, que já possui forte participação na cadeia de petróleo e gás, aparece como um dos locais estratégicos para receber grandes empreendimentos industriais, ao lado de São João da Barra, onde está instalado o Porto do Açu.
A perspectiva envolve a construção de unidades destinadas à fabricação de amônia e ureia, produtos utilizados como matérias-primas na produção de fertilizantes e considerados fundamentais para o desenvolvimento da agricultura brasileira. A proximidade com a infraestrutura responsável pelo transporte e processamento do gás natural extraído do pré-sal é apontada como uma das principais vantagens competitivas da região.
As oportunidades foram apresentadas no estudo “Petroquímica e Fertilizantes no Rio de Janeiro 2026”, divulgado nesta quarta-feira (4) pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). O documento analisa possibilidades de crescimento da indústria de transformação fluminense e identifica áreas com potencial para receber novos investimentos relacionados aos setores de petróleo, gás e petroquímica.
O levantamento destaca especialmente o Norte Fluminense como uma região com condições favoráveis para abrigar empreendimentos industriais de grande porte. A disponibilidade crescente de gás natural, associada à infraestrutura já existente e aos projetos em desenvolvimento, pode favorecer a implantação de novas fábricas e ampliar a participação do estado na produção nacional de insumos industriais.
O cenário também está relacionado ao volume de investimentos previstos para o Rio de Janeiro nos próximos anos. A carteira de projetos nos segmentos de petróleo, gás, energia e indústria naval ultrapassa R$ 25 bilhões até 2030, criando perspectivas de expansão econômica e de fortalecimento da atividade industrial em diferentes regiões fluminenses.
Para Macaé, tradicionalmente reconhecida pela concentração de empresas e operações ligadas à exploração e produção de petróleo, a chegada de uma indústria de fertilizantes poderia representar um passo importante na diversificação da economia local. A possibilidade de utilizar o gás natural como matéria-prima permitiria ampliar as atividades industriais do município e reduzir a dependência de segmentos diretamente vinculados à exploração petrolífera.
A produção de amônia e ureia também possui importância estratégica para o Brasil. Esses componentes são amplamente empregados na fabricação de fertilizantes utilizados nas lavouras, contribuindo para a produtividade agrícola e para o abastecimento da cadeia de alimentos. Com a instalação de novas unidades industriais, o país poderá ampliar sua capacidade de fabricação desses insumos e diminuir parte da necessidade de recorrer ao mercado internacional.
Apesar das perspectivas positivas, a concretização dos empreendimentos ainda depende de investimentos efetivos, condições econômicas favoráveis e de uma estrutura capaz de garantir o fornecimento competitivo do gás natural.
Gás do pré-sal abre caminho para novos empreendimentos
Um dos principais fatores que sustentam as projeções de crescimento do setor é o aumento da capacidade de processamento do gás natural produzido no litoral brasileiro. O estudo da Firjan destaca, nesse contexto, a entrada em operação de estruturas como a Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) do Complexo Boaventura, localizado em Itaboraí, além do Projeto Rota 3.
Essas instalações desempenham papel importante no processamento e na disponibilização do combustível, criando condições para ampliar o abastecimento de indústrias que utilizam o gás natural em seus processos produtivos. A expectativa é que a oferta aumente gradativamente nos próximos anos, favorecendo a instalação de novos empreendimentos e a expansão de atividades industriais já existentes.
Além das possíveis fábricas de fertilizantes previstas para Macaé e para a área do Porto do Açu, o crescimento da oferta também poderá beneficiar o Polo Petroquímico de Duque de Caxias. A ampliação da disponibilidade de matéria-prima poderá estimular a chegada de empresas interessadas na fabricação de plásticos, produtos químicos e materiais especiais.
Dessa forma, as oportunidades identificadas não estão restritas à produção de amônia e ureia. O maior aproveitamento do gás natural poderá impulsionar diferentes segmentos da indústria petroquímica, estimular a transformação de matérias-primas dentro do próprio território fluminense e atrair empresas interessadas em utilizar o combustível tanto como insumo industrial quanto como fonte de energia.
Na avaliação da gerente-geral de Petróleo, Gás, Energias e Naval da Firjan, Karine Fragoso, os novos complexos industriais planejados para o Norte Fluminense representam uma oportunidade de aproveitar melhor a estrutura energética desenvolvida em torno da produção do pré-sal. A proposta é transformar parte desse potencial em produtos industriais que atualmente precisam ser comprados de fornecedores internacionais.
A representante da entidade também mencionou as dificuldades enfrentadas pelo setor de fertilizantes ao longo de 2026, principalmente em razão da oferta limitada de enxofre e da elevação expressiva dos preços praticados no mercado internacional.
O episódio reforçou, segundo a avaliação apresentada pela Firjan, a necessidade de fortalecer a indústria nacional e ampliar a capacidade brasileira de produzir insumos estratégicos. A dependência de fornecedores estrangeiros deixa o país mais exposto às variações de preços, às dificuldades de abastecimento e às instabilidades do comércio internacional.
Viabilidade dos investimentos depende de condições competitivas
Mesmo com o potencial identificado no estudo, a instalação de novas fábricas no Rio de Janeiro depende de uma série de fatores econômicos, regulatórios e estruturais. A existência de reservas de gás natural e a ampliação da capacidade de processamento são elementos importantes, mas não garantem, isoladamente, a concretização dos projetos industriais.
Entre as condições consideradas fundamentais pela Firjan estão a oferta de gás a preços competitivos, a segurança jurídica para os investidores e a estabilidade das normas que regulamentam o setor. Esses fatores são apontados como essenciais para proporcionar previsibilidade aos empreendimentos e permitir que as empresas avancem com seus planos de implantação.
Karine Fragoso destacou que o principal desafio para os próximos anos será transformar a disponibilidade de recursos energéticos em capacidade efetiva de produção industrial.
“O grande desafio da próxima década já não é a descoberta de recursos, mas a execução coordenada de políticas que garantam preços competitivos de gás natural, segurança jurídica e previsibilidade regulatória. Ao transformar a sua riqueza geológica em valor industrial, o Rio de Janeiro lidera a retomada da soberania produtiva do Brasil, gerando emprego e renda”, afirmou a representante da Firjan.
A declaração chama atenção para a necessidade de criar condições que permitam às indústrias acessar o gás natural por valores que tornem a produção economicamente atrativa. Mesmo com o aumento da oferta do combustível, a ausência de competitividade nos preços poderá dificultar a implantação de novos empreendimentos e comprometer os investimentos planejados.
No Norte Fluminense, Macaé e São João da Barra aparecem como municípios com características estratégicas para receber essa nova etapa de expansão industrial. A conexão com a infraestrutura de transporte do gás e a proximidade com as atividades da cadeia de petróleo e gás estão entre os fatores que favorecem a região.
Em São João da Barra, a presença do Porto do Açu representa outro diferencial importante. A estrutura portuária pode contribuir para a logística de grandes empreendimentos, facilitando o transporte de matérias-primas e produtos industriais, além de integrar o município ao planejamento de expansão apresentado pelo estudo.
Para Macaé, a possibilidade de receber fábricas de fertilizantes representa uma oportunidade de ampliar sua participação na economia fluminense para além das atividades tradicionais de exploração e produção de petróleo. A instalação de unidades industriais poderá estimular novos negócios, atrair empresas fornecedoras e criar oportunidades de trabalho em diferentes áreas.
O estudo da Firjan aponta, portanto, um caminho para que o Rio de Janeiro aproveite melhor sua produção de gás natural, agregando valor ao recurso energético por meio da fabricação de produtos industriais. Em vez de limitar o aproveitamento econômico à extração e ao processamento inicial do combustível, a proposta é fortalecer etapas posteriores da cadeia produtiva.
Embora o cenário apresente oportunidades relevantes para o desenvolvimento regional, a realização dos investimentos dependerá das decisões das empresas, das condições do mercado e da adoção de políticas públicas que garantam segurança e competitividade ao setor.
A efetivação dos projetos será determinante para transformar o potencial identificado em novas unidades industriais, geração de empregos, circulação de renda e fortalecimento da economia do Norte Fluminense. Caso avancem, os empreendimentos poderão representar uma nova fase de diversificação econômica para Macaé e outras cidades da região, aproveitando a infraestrutura energética construída em torno da exploração do pré-sal.








