Quase uma semana depois de o episódio ganhar repercussão nas redes sociais, o caso envolvendo a procuradora municipal Renata Pinto Rodrigues Pimentel Ribeiro continua provocando debates e apresentando novos desdobramentos. Após a exposição pública por causa de declarações direcionadas a eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de outros grupos sociais, a servidora decidiu se manifestar. Em entrevista ao jornal O DIA, reconheceu que cometeu um erro, pediu desculpas às pessoas atingidas por suas declarações e revelou que tem recebido ameaças de morte.
Renata foi afastada preventivamente de suas funções depois de realizar publicações nas redes sociais, logo após a divulgação do resultado do segundo turno das eleições. Nas mensagens, foram feitos comentários ofensivos contra nordestinos, mineiros, pessoas em situação de vulnerabilidade social, eleitores do Partido dos Trabalhadores (PT) e integrantes da comunidade LGBTQIA+. A procuradora afirmou que não esperava que uma manifestação feita em um momento de forte emoção alcançasse tamanha repercussão.
Durante a entrevista, ao ser questionada sobre a decisão da Prefeitura de Macaé, Renata confirmou que recebeu a notificação oficial e assinou o documento que comunica seu afastamento. A determinação foi publicada no Diário Oficial de quinta-feira (29) e estabelece que ela permaneça afastada preventivamente das atividades por um período de 30 dias. A procuradora também comentou as consequências do episódio, o impacto da repercussão pública e apresentou sua versão sobre os acontecimentos que antecederam as publicações.
Ao explicar como as mensagens se tornaram públicas, Renata relatou que os comentários foram feitos em uma conta privada no Facebook. Segundo ela, o conteúdo acabou sendo divulgado depois que pessoas conhecidas realizaram capturas de tela das publicações e compartilharam o material com terceiros. A procuradora afirmou que se sentiu traída ao perceber que pessoas próximas, nas quais depositava confiança, foram responsáveis por disseminar as mensagens.
Ela também voltou a mencionar o estado emocional em que estava quando escreveu os comentários direcionados aos moradores do Nordeste e de Minas Gerais. Ao abordar as declarações, destacou que seu pai e seu avô eram mineiros, embora tenha reconhecido que estava alterada naquele momento.
“Eu estava de cabeça quente, realmente. É uma loucura, tô sendo ameaçada de morte”, declarou a procuradora durante a conversa com o jornal.
A entrevista também trouxe um relato sobre os efeitos pessoais de um episódio que ultrapassou rapidamente os limites das redes sociais e passou a ter consequências na trajetória profissional da servidora. Antes mesmo de conceder a entrevista ao O DIA, Renata já havia utilizado suas próprias redes sociais para divulgar uma manifestação pública de desculpas às pessoas que se sentiram atingidas pelas declarações.
Arrependimento e pedido público de desculpas
Em uma nota divulgada nas redes sociais, a procuradora reconheceu a gravidade das manifestações e assumiu a responsabilidade pelo conteúdo publicado. No comunicado, afirmou que compreende o alcance das palavras utilizadas e que deseja se retratar com os diferentes grupos que foram mencionados nas mensagens.
“Reconheço meu erro e assumo integralmente a responsabilidade pelo que disse”, escreveu Renata.
O pedido de desculpas foi direcionado especialmente à população nordestina, aos mineiros, aos artistas, aos trabalhadores, às pessoas em situação de vulnerabilidade social e a todos aqueles que se sentiram ofendidos pelas declarações. Na manifestação, a procuradora procurou deixar claro que não pretendia apresentar justificativas para o ocorrido, mas admitir que errou e demonstrar arrependimento pelo que foi dito.
Renata também reconheceu que ocupar uma função pública exige um nível ainda maior de responsabilidade na maneira de se comunicar e de se relacionar com a população. Segundo ela, o exercício do cargo requer equilíbrio, respeito e sensibilidade diante das diferenças existentes na sociedade.
“Minha função exige equilíbrio, sensibilidade e compromisso com o respeito a todos os cidadãos”, afirmou na nota publicada.
Em outro momento do comunicado, a procuradora ressaltou que divergências políticas não podem ser utilizadas como justificativa para atitudes discriminatórias, manifestações ofensivas ou situações de humilhação. Para ela, todas as pessoas devem receber tratamento digno, independentemente de suas características, condições econômicas, profissão, local de origem ou posicionamento político.
“Nenhuma divergência política justifica o desrespeito, a discriminação ou a humilhação de quem quer que seja. Cada pessoa merece ser tratada com dignidade, independentemente de sua origem, condição social, profissão ou posicionamento político.”
A manifestação também apresentou uma reflexão sobre a responsabilidade individual pelas declarações e a importância de reconhecer as consequências das próprias atitudes. Renata afirmou que não pretende utilizar as circunstâncias do momento como justificativa para o comportamento e que considera necessário aprender com o episódio.
“Não pretendo justificar o que aconteceu nem me esconder atrás das circunstâncias. Quero reconhecer que errei, pedir perdão e aprender com esse episódio”, declarou.
O caso ganhou repercussão inicialmente na terça-feira (27), quando uma publicação atribuída à procuradora começou a circular nas redes sociais. Na mensagem, Renata afirmou que deixaria de desenvolver políticas públicas destinadas a eleitores do PT e aconselhou empresas a não contratarem artistas, pessoas pobres, nordestinos e mineiros.
Depois que o conteúdo passou a ser amplamente compartilhado, outras manifestações antigas atribuídas à procuradora também voltaram a circular na internet. Entre elas, uma publicação feita em 2025 na rede social X, na qual ela utilizou expressões de extrema violência contra pessoas identificadas como integrantes da esquerda política.
Na mensagem, a procuradora escreveu: “Não tenho palavras para descrever estes nazistas de esquerda! Se eu pudesse metralhava a todos sem distinção! Estamos em guerra mesmo! Morte aos esquerdistas”.
Afastamento preventivo e investigações continuam
Além da decisão administrativa que determinou seu afastamento temporário, Renata passou a responder a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), aberto pela administração municipal para investigar possíveis irregularidades e infrações funcionais relacionadas às manifestações publicadas nas redes sociais.
A medida preventiva estabelece o afastamento da procuradora pelo prazo de 30 dias e foi oficializada por meio de publicação no Diário Oficial de quinta-feira (29). Durante a tramitação do procedimento, deverão ser assegurados à servidora os direitos ao contraditório e à ampla defesa, conforme as garantias previstas para processos dessa natureza.
A Polícia Civil também confirmou a abertura de um inquérito para investigar o episódio e apurar as circunstâncias relacionadas às publicações. A investigação policial ocorre paralelamente às providências administrativas adotadas pela Prefeitura de Macaé.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) igualmente se pronunciou sobre o caso. A entidade manifestou repúdio às declarações e destacou que o direito à liberdade de expressão não representa autorização para práticas discriminatórias, manifestações de hostilidade ou atitudes de exclusão contra pessoas por causa de sua origem, condição social, orientação sexual ou posicionamento político.
O prefeito de Macaé, Welberth Rezende, também comentou publicamente a situação. Em um vídeo divulgado nas redes sociais na tarde desta sexta-feira, o chefe do Executivo municipal afirmou que manifestações preconceituosas e discriminatórias não são compatíveis com os valores defendidos pela administração da cidade.
“Preconceito e discriminação não têm espaço em Macaé!”, declarou o prefeito.
Welberth Rezende explicou que, assim que tomou conhecimento das publicações atribuídas à procuradora, determinou que fossem adotadas as providências legais e administrativas necessárias para tratar do episódio. Entre as medidas mencionadas pelo prefeito estão a instauração do processo administrativo disciplinar e o afastamento preventivo da servidora por 30 dias.
O prefeito também procurou separar as manifestações individuais da posição institucional da administração municipal, ressaltando que as declarações não representam o pensamento da Prefeitura nem dos servidores públicos que trabalham no município.
Ao concluir sua manifestação, Welberth reforçou a importância do respeito às diferenças e da igualdade entre os cidadãos, independentemente de suas origens ou opiniões.
“Nossa cidade é de todos e para todos! Respeito, igualdade e dignidade são valores dos quais não abrimos mão”, afirmou.
Enquanto as investigações e o procedimento administrativo seguem em andamento, o episódio continua repercutindo em Macaé e nas redes sociais. A procuradora permanece afastada preventivamente pelo prazo estabelecido, enquanto as autoridades responsáveis apuram os fatos e as possíveis consequências das declarações.








