Famílias que vivem em conjuntos habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida, na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, denunciam estar sofrendo ameaças de integrantes de uma milícia que atua na região. Segundo os relatos, os moradores passaram a ser pressionados a pagar uma cobrança mensal de R$ 100, apresentada pelo grupo como uma taxa de condomínio. Aqueles que não conseguem manter os pagamentos em dia estariam sujeitos a perder os próprios apartamentos.
De acordo com as denúncias, integrantes da organização criminosa teriam assumido o controle da administração dos condomínios e estabelecido uma cobrança obrigatória para os residentes. A situação preocupa especialmente as famílias que acumulam dívidas superiores a oito meses, que estariam recebendo ameaças de expulsão dos imóveis. Os apartamentos, segundo os relatos, poderiam ser retirados dos atuais ocupantes e posteriormente colocados à venda pelos próprios milicianos.
Um dos moradores que decidiu denunciar a situação afirma viver no conjunto habitacional há aproximadamente oito anos. Ele conta que a presença de grupos milicianos na região não é recente, mas destaca que houve uma alteração na liderança da organização criminosa há cerca de três anos. Desde então, segundo o relato, a maneira como as cobranças são realizadas teria se intensificado.
O denunciante relata que uma mulher costuma percorrer os apartamentos acompanhada por três homens armados para exigir o pagamento dos valores cobrados dos moradores. A presença do grupo armado dentro do conjunto habitacional provoca medo entre as famílias, que se sentem ameaçadas e sem liberdade para questionar as exigências.
O próprio morador afirma ter sido intimidado com a possibilidade de perder seu apartamento caso não regularizasse uma dívida até o dia 10 de novembro. Segundo ele, a cobrança é realizada de maneira coercitiva, sem que os residentes tenham condições de contestar os valores ou se recusar a efetuar os pagamentos.
“Estamos tendo ameaça devido à cobrança ilegal do condomínio, uma taxa de R$ 100. E aqueles que devem mais de 8 meses, eles estão expulsando”, relatou o denunciante.
A situação tem provocado insegurança entre os moradores, principalmente entre as famílias que dependem dos imóveis conquistados por meio do programa habitacional para garantir uma moradia. O denunciante também fez um apelo às autoridades responsáveis pela segurança pública, solicitando providências para proteger os residentes da Colônia Juliano Moreira e impedir que continuem submetidos às ameaças.
Denúncia aponta possível participação de policiais militares
Além das acusações relacionadas à cobrança de valores e às ameaças de expulsão, o relato apresentado pelo morador também levanta suspeitas sobre uma possível participação de policiais militares nas atividades do grupo criminoso.
Segundo o denunciante, viaturas do 18º Batalhão de Polícia Militar (BPM), responsável pelo policiamento em Jacarepaguá, estariam acompanhando a mulher apontada como responsável por realizar as cobranças nos conjuntos habitacionais. A suspeita é de que os veículos policiais ofereçam algum tipo de proteção durante as abordagens aos moradores.
O residente afirma que já presenciou uma situação em que uma viatura permaneceu nas proximidades enquanto a mulher realizava uma cobrança. Ele também relata que o veículo policial costuma acompanhar os deslocamentos da suspeita pelas áreas internas do conjunto habitacional.
As declarações levantam questionamentos sobre a atuação de agentes de segurança na região e sobre a possibilidade de envolvimento ou conivência de policiais com as práticas denunciadas. Até o momento, entretanto, as informações apresentadas fazem parte dos relatos dos moradores e não há confirmação oficial de participação de integrantes da corporação nas atividades da milícia.
A suspeita de envolvimento de agentes públicos aumenta a preocupação dos residentes, que relatam enfrentar dificuldades para procurar ajuda diante do medo de represálias. Por isso, o pedido de intervenção das autoridades também envolve a necessidade de garantir segurança para quem deseja denunciar as cobranças e as intimidações.
Polícia Civil afirma que não recebeu registro da ocorrência
Procurada sobre as denúncias, a Polícia Civil informou que, até o momento, não havia registro de ocorrência com essas características na delegacia responsável pela área onde estão localizados os conjuntos habitacionais.
A corporação ressaltou que mantém ações permanentes de enfrentamento ao crime organizado, às milícias e ao tráfico de drogas. Esse trabalho é desenvolvido por meio das delegacias distritais e de unidades especializadas, entre elas a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco), responsável por investigações relacionadas a organizações criminosas.
A Polícia Civil também orientou que os moradores formalizem as denúncias nas unidades policiais para que os fatos possam ser apurados. O registro oficial é considerado importante para permitir a abertura de investigações, a identificação dos possíveis envolvidos e a adoção das medidas legais necessárias contra os responsáveis.
Outra alternativa disponibilizada à população é o Disque Denúncia, serviço que recebe informações sobre atividades criminosas e permite que os denunciantes mantenham o anonimato. A orientação é que moradores que tenham conhecimento de cobranças ilegais, ameaças ou outras práticas criminosas utilizem os canais oficiais para comunicar as autoridades.
A Polícia Civil reforçou que as informações recebidas podem contribuir para o trabalho de investigação e para a identificação de pessoas envolvidas com organizações criminosas que atuam no estado.
Até a divulgação das informações, a Polícia Militar ainda não havia apresentado um posicionamento público sobre as suspeitas de que viaturas do 18º BPM estariam acompanhando a mulher responsável pelas cobranças nos condomínios da Colônia Juliano Moreira.
Enquanto não há esclarecimentos sobre as denúncias, os moradores continuam relatando preocupação com a situação e pedindo uma atuação das autoridades para impedir que famílias sejam ameaçadas de perder suas residências. O caso envolve suspeitas de extorsão, intimidação e controle ilegal de conjuntos habitacionais destinados à população de baixa renda, além de questionamentos sobre uma possível participação de agentes de segurança nas ações denunciadas.







