Uma equipe de robótica composta por alunos da Escola Firjan Sesi São Gonçalo foi reconhecida internacionalmente durante o Chicago Robotics Invitational (CRI), evento realizado em Chicago, nos Estados Unidos. O grupo Tech Fênix foi premiado por desenvolver ações que utilizam a robótica como instrumento de educação, inclusão e incentivo à participação de crianças e adolescentes nas áreas de ciência e tecnologia.
Representante brasileira única na competição, a Tech Fênix recebeu, em 26 de julho, o Clark Street Bridge Builders Award. A premiação é concedida a equipes que se destacam por utilizar a robótica para aproximar novas gerações do conhecimento científico e tecnológico.
A honraria vai além dos resultados obtidos pelos robôs durante as disputas. O reconhecimento leva em consideração o trabalho desenvolvido pelas equipes fora das arenas, especialmente iniciativas que transformam a tecnologia em uma ferramenta de aprendizado e de transformação social. Entre os campos estimulados estão ciência, tecnologia, engenharia e matemática, conjunto conhecido pela sigla STEM.
Para os estudantes de São Gonçalo, o anúncio do resultado provocou surpresa e emoção. Maria Victoria Rocha, integrante da área de atributos da equipe, contou que os participantes levaram alguns instantes para entender que o nome do grupo havia sido escolhido.
“Foi uma sensação surreal. No primeiro momento a gente demorou um pouco pra perceber que realmente tinha sido a gente quem ganhou o prêmio.”
Pedro Lucas, integrante da programação, também destacou a importância de estar diante de equipes que antes conhecia apenas por vídeos na internet. Segundo ele, participar da competição representou a concretização de um objetivo que parecia distante.
“Quando eu cheguei na competição e vi as melhores equipes do mundo pessoalmente eu me lembrei de todas as vezes em que eu assistia vídeos no youtube dessas e de outras equipes me perguntando se um dia eu ia conseguir chegar lá. E eu consegui.”
De São Gonçalo para um torneio internacional
A classificação para o evento nos Estados Unidos veio após o desempenho apresentado pela Tech Fênix no Torneio Nacional de Robótica do Festival Sesi de Educação, realizado em março, na cidade de São Paulo. Com o resultado alcançado na etapa nacional, a equipe conquistou o direito de representar o Brasil no Chicago Robotics Invitational.
Em Chicago, os estudantes participaram da competição ao lado de mais de 40 equipes internacionais, vindas de países como Estados Unidos, México, China e Grécia. A presença brasileira também proporcionou aos integrantes uma experiência de intercâmbio cultural.
Thalita Malafaia, da área de atributos da equipe, explicou que representar o Brasil diante de participantes de diferentes nacionalidades trouxe uma combinação de responsabilidade, emoção e aprendizado.
“É um misto de emoções e uma responsabilidade grande. Poder compartilhar um pouco da nossa cultura com várias pessoas de países diferentes foi uma experiencia mágica.”
Durante a viagem e a realização do torneio, os alunos da Tech Fênix fizeram questão de apresentar elementos da cultura brasileira aos demais participantes. O grupo distribuiu pequenas bandeiras e leques com a bandeira do Brasil para integrantes de outras equipes.
De acordo com os estudantes, a iniciativa aproximou ainda mais os competidores e fez com que pessoas de diferentes países passassem a acompanhar e torcer pela equipe brasileira durante as atividades.
Tainá Malheiros, integrante da área de engenharia, ressaltou que a interação com outros participantes foi um dos pontos de destaque da experiência internacional.
“Foi ao mesmo tempo incrível e desafiador conhecer pessoas novas, trocar ideias em outra língua e mesmo com culturas tão diferentes, perceber que todos nós compartilhávamos o mesmo amor pela robótica.”
Reconhecimento valoriza ações desenvolvidas fora das arenas
A conquista da Tech Fênix não está relacionada somente ao desempenho apresentado durante as partidas. O Clark Street Bridge Builders Award reconheceu principalmente o conjunto de iniciativas realizadas pela equipe ao longo da temporada para levar a robótica a crianças, adolescentes e comunidades.
Durante o último ciclo de atividades, os integrantes estiveram em 67 escolas, alcançando mais de 2,3 mil pessoas. Além das ações educativas, a equipe também conseguiu arrecadar quatro toneladas de alimentos, que posteriormente foram encaminhados para instituições sociais.
Os estudantes organizaram oficinas, apresentações, demonstrações e outras atividades destinadas a apresentar a robótica para novos públicos. As ações tiveram como objetivo despertar o interesse pelas tecnologias e também pelas diferentes profissões relacionadas às áreas de STEM.
Khemeronn Faziolato, integrante da área de atributos, afirmou que o anúncio da premiação foi um dos momentos mais emocionantes de toda a viagem. Para ele, o reconhecimento simbolizou o resultado de um trabalho construído coletivamente durante meses.
“Quando ouvimos o nome da nossa equipe sendo anunciado, foi como se todos os dias de trabalho, todas as dificuldades, reuniões e todo o esforço coletivo tivessem valido a pena ao mesmo tempo.”
A participação no torneio internacional também proporcionou aos estudantes uma série de aprendizados individuais. Débora Simões, da engenharia, explicou que a experiência contribuiu para o desenvolvimento de habilidades que vão além dos conhecimentos técnicos relacionados à robótica.
“Essa experiência nos trouxe tanto aprendizado técnicos quanto pessoais. Um dos principais foi a comunicação.”
A necessidade de utilizar outro idioma durante o contato com equipes estrangeiras também foi apontada como uma dificuldade enfrentada pelos estudantes. Elloá Souza, integrante da programação, afirmou que falar português era uma característica que diferenciava o grupo brasileiro dos demais participantes.
“Acho que talvez a língua. Num geral a gente era a única equipe que falava português.”
Equipe brasileira tem nove meninas entre dez integrantes
Outro aspecto que chamou atenção na delegação da Tech Fênix foi a presença feminina. Entre os dez estudantes, com idades que variam de 15 a 17 anos, que viajaram aos Estados Unidos para representar o Brasil, nove são meninas.
Para Ana Hadassa Revorêdo Ramos Vidal, da engenharia, a composição da equipe demonstra que meninas e mulheres têm espaço e capacidade para atuar nas áreas relacionadas à ciência, tecnologia, engenharia e matemática.
“Fazer parte de uma equipe formada majoritariamente por meninas mostra que nós também pertencemos a esses espaços.”
A estudante também destacou a importância de ampliar a presença feminina no setor, especialmente para que outras meninas possam encontrar referências e se sintam estimuladas a seguir carreiras ligadas à tecnologia.
“Quanto mais mulheres no STEM, mais inovação, diferentes perspectivas e oportunidades para que outras meninas se sintam representadas.”
Júlia Lamblet, da programação, relatou que a participação na equipe também modificou suas próprias perspectivas sobre a área profissional que gostaria de seguir. Inicialmente interessada principalmente na engenharia e na construção do robô, ela acabou descobrindo afinidade com a programação.
“Eu mesma não me imaginava como programadora da equipe. Mas com o passar do tempo, aprendi mais sobre programação e vi que era aquilo que eu gostava de fazer.”
A estudante considera que conhecer diferentes áreas é fundamental para quem ainda está tentando descobrir qual profissão deseja seguir.
“Essa área é enorme e tem milhões de possibilidades.”
Projeto já inspira novos estudantes em São Gonçalo
O impacto das atividades promovidas pela Tech Fênix pode ser observado também na história de jovens que tiveram o primeiro contato com a robótica por meio das ações realizadas pela própria equipe.
Um exemplo é Isac Farias, de 15 anos. Em 2023, antes de estudar na Escola Firjan Sesi São Gonçalo, ele participou do Torneio Interno de Robótica, projeto criado pela Tech Fênix e aberto à participação de crianças e adolescentes da comunidade.
A experiência despertou o interesse de Isac pela tecnologia. Depois de ingressar na escola, o estudante participou do processo seletivo para integrar a equipe, foi aprovado e atualmente faz parte da Tech Fênix que irá disputar a próxima temporada.
Para Ana Carolina Monteiro, integrante da área de atributos, a capacidade de incentivar outros jovens é justamente um dos fatores que tornam o prêmio internacional ainda mais significativo.
“A nossa maior conquista já era estar em Chicago, representando o Brasil e mostrando que uma equipe de São Gonçalo podia competir entre as melhores do mundo.”
Na avaliação da estudante, a trajetória do grupo também representa uma mensagem para crianças e adolescentes que enxergam determinados sonhos como algo distante ou difícil de alcançar.
“Nós somos a prova de que isso não é verdade. Se hoje uma criança ou um adolescente de São Gonçalo olhar para a nossa história e pensar: ‘Se eles conseguiram, eu também consigo’, então tudo o que vivemos valeu a pena.”
Além das ações sociais e educacionais, a competição internacional envolve desafios que exigem integração entre estratégia, engenharia e programação. Cada partida possui dois minutos e meio de duração e é dividida em diferentes momentos.
Nos primeiros 30 segundos, durante o período autônomo, o robô deve executar de maneira independente as tarefas previamente programadas pelos estudantes. Na sequência, os integrantes assumem os controles e passam a conduzir o equipamento para cumprir novos objetivos, superar desafios e buscar uma pontuação maior.
Para Maria Victoria Rocha, o prêmio recebido em Chicago representa mais do que um troféu conquistado em uma competição internacional. Segundo ela, a homenagem demonstra que as ações desenvolvidas pela equipe junto à comunidade produzem resultados e possuem importância para quem participa delas.
“Receber todo esse apoio que a comunidade dá para a gente e também poder retribuir esse apoio é muito gratificante. Receber esse prêmio mostra que o nosso trabalho não é em vão.”








