Mesmo com o avanço da Inteligência Artificial (IA) no gerenciamento da mobilidade urbana em diversas cidades do Brasil e do exterior, o sistema de controle do trânsito do Rio de Janeiro ainda funciona, em grande parte, com uma estrutura considerada ultrapassada e baseada em processos analógicos. Atualmente, a operação depende principalmente da atuação humana para identificar ocorrências e tomar decisões, como alterar o tempo dos semáforos ou priorizar a passagem de equipes de emergência. A falta de modernização contribui para congestionamentos de grande impacto, como ocorreu no fim de junho, quando o tombamento de uma carreta na Rua Muniz Barreto, em Botafogo, provocou reflexos em toda a Zona Sul e chegou a afetar o trânsito no Centro da cidade.
Especialistas destacam que sistemas inteligentes baseados em IA conseguem adaptar automaticamente a operação do trânsito de acordo com as condições registradas em tempo real. A tecnologia analisa milhares de cenários simultaneamente, utilizando informações coletadas por sensores e equipamentos instalados nas vias para contabilizar o fluxo de veículos e ajustar a sincronização dos sinais conforme a demanda.
Segundo o engenheiro Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes, centro de estudos de mobilidade urbana da Fundação Getulio Vargas, o Rio ainda não dispõe dessa infraestrutura tecnológica. Ele explica que a implantação desse modelo exige investimentos em conectividade, especialmente por meio da tecnologia 5G, responsável por transmitir dados com rapidez e estabilidade para que os sistemas inteligentes possam atuar de maneira eficiente.
Sistema atual foi implantado entre 2009 e 2012
Hoje, o monitoramento do trânsito carioca é realizado pelo Centro de Operações e Resiliência (COR), utilizando uma plataforma tecnológica instalada entre os anos de 2009 e 2012. O funcionamento baseia-se principalmente na contagem de veículos realizada pelos radares de fiscalização, cujos dados servem para que engenheiros programem previamente os tempos dos semáforos conforme estatísticas históricas e previsões de fluxo ao longo do dia.
Desde a implantação desse modelo, há cerca de 14 anos, não houve uma atualização estrutural significativa no sistema responsável pelo gerenciamento da circulação de veículos na cidade.
Sem recursos avançados de Inteligência Artificial, qualquer ocorrência inesperada depende da identificação visual por meio das câmeras de monitoramento ou de alertas enviados ao COR. A confirmação de acidentes, panes mecânicas ou outros incidentes pode levar alguns minutos, atrasando o envio das equipes de atendimento e dificultando ajustes rápidos na sinalização para minimizar os congestionamentos.
Prefeitura busca alternativas para modernizar o sistema
Embora especialistas apontem que a modernização possa reduzir congestionamentos e até diminuir a emissão de gases poluentes, ainda não existe uma previsão para que um sistema inteligente seja implantado na cidade.
A Prefeitura do Rio informou que iniciou, em junho, um Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI), mecanismo que permite ao setor privado apresentar estudos técnicos e propostas para modernizar a operação dos 3.121 cruzamentos semaforizados existentes no município.
Seis empresas participaram do chamamento público. Os estudos deverão apresentar um diagnóstico completo da situação atual, sugerir soluções tecnológicas, indicar possíveis fontes de financiamento e apontar o modelo mais adequado para implantação do novo sistema, seja por meio de concessão ou de uma Parceria Público-Privada (PPP).
Outro objetivo do projeto é identificar tecnologias capazes de reduzir os frequentes casos de furto e vandalismo contra equipamentos semafóricos, problema que compromete ainda mais o controle da circulação de veículos.
Estudos serão base para futura licitação
As primeiras análises deverão ser entregues à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico ainda nesta semana. Já os relatórios finais estão previstos para agosto e servirão de base para a elaboração de uma futura concorrência pública destinada à contratação do novo sistema.
Para Lucas Kubaski, diretor de Produtos, Soluções e Marketing da Dahua Technology, empresa especializada em segurança eletrônica e Inteligência Artificial das Coisas, a IA tornou-se indispensável para a gestão de cidades inteligentes. Segundo ele, sensores modernos instalados nos semáforos conseguem gerar informações detalhadas sobre o perfil do tráfego, identificando, por exemplo, a quantidade de carros, motocicletas e outros veículos que circulam por cada via, dados que equipamentos convencionais não conseguem processar.
Experiência com BRT foi abandonada
Durante os Jogos Olímpicos de 2016, o município implantou uma tecnologia que priorizava automaticamente a passagem dos ônibus do BRT. O sistema, conhecido como “trânsito livre”, alterava a sinalização sempre que um coletivo se aproximava dos cruzamentos, reduzindo o tempo de viagem nos corredores Transcarioca e Transoeste.
Entretanto, com a deterioração do sistema de BRT durante a gestão do ex-prefeito Marcelo Crivella, os equipamentos deixaram de receber manutenção e acabaram sendo desativados. Posteriormente, o programa de recuperação dos corredores não incluiu a atualização dessa tecnologia.
Parcerias tentam reduzir atraso tecnológico
Enquanto o novo modelo não é implantado, a Prefeitura busca alternativas por meio de parcerias. Em conjunto com a Google, estão sendo realizados testes envolvendo equipamentos de controle semafórico baseados em Inteligência Artificial, embora as informações ainda sejam integradas à rede convencional de monitoramento.
Além disso, dados fornecidos pelo aplicativo Waze também são utilizados de forma reativa para orientar o deslocamento das equipes operacionais sempre que são identificados congestionamentos ou retenções em diferentes pontos da cidade.
Na área da segurança pública, a administração municipal já utiliza recursos de IA no projeto Civitas, que reúne mais de 3,5 mil câmeras de videomonitoramento voltadas principalmente ao reconhecimento facial e à identificação de veículos suspeitos. Embora essas imagens também possam auxiliar o Centro de Operações, sua principal finalidade é reforçar as ações de segurança urbana. Paralelamente, o município mantém uma extensa rede de radares destinada à fiscalização e aplicação de multas.
Outra iniciativa recente envolvendo tecnologia foi a implantação do projeto-piloto do Rio Rotativo Digital, iniciado na sexta-feira na Lagoa Rodrigo de Freitas. O novo sistema elimina os antigos talões de estacionamento e o pagamento em dinheiro, permitindo que toda a operação seja realizada por meio do aplicativo Jaé. A solução tecnológica já está em funcionamento em municípios como Niterói, Petrópolis, Volta Redonda e Búzios.








