A partir deste sábado (30), a rede ferroviária do Estado do Rio de Janeiro passa a ser administrada pela concessionária TrensRJ. A empresa assume oficialmente o serviço após o encerramento das atividades da SuperVia nesta sexta-feira (29), colocando fim a um ciclo de 27 anos de gestão da antiga operadora. Veículos da imprensa carioca esteve na estação de Marechal Hermes, na Zona Norte da capital, para ouvir a expectativa dos usuários diante da mudança.
O contrato, com duração de cinco anos, foi celebrado entre a NovaVia Mobilidade, consórcio vinculado à TrensRJ, e o Governo do Estado em março deste ano. O acordo prevê investimentos da ordem de R$ 560 milhões para administrar cerca de 300 quilômetros de trilhos distribuídos por cinco ramais ferroviários, além das conexões entre a capital fluminense e cidades da região metropolitana.
Desafios da nova administração
De acordo com a concessionária, o processo de transição representa um grande desafio. Entre os principais obstáculos estão a expressiva redução do número de passageiros transportados diariamente, que caiu de 759 mil para aproximadamente 330 mil usuários, além das condições precárias encontradas em parte da infraestrutura ferroviária. A empresa também destaca problemas relacionados ao vandalismo e ao acúmulo de resíduos ao longo da malha.
Na estação Central do Brasil, por exemplo, ponto de partida das linhas expressas para Santa Cruz, é comum encontrar sujeira acumulada entre os trilhos, pichações em vagões e vidros danificados. Em algumas composições ainda há registros de janelas quebradas e marcas provocadas por disparos de arma de fogo.
A insegurança também tem afetado a operação. Somente neste ano, o ramal Saracuruna, que atende municípios da Baixada Fluminense, enfrentou ao menos duas ocorrências graves envolvendo assaltos e confrontos armados. Em abril, um funcionário foi baleado na região da boca ao tentar proteger uma passageira durante um roubo ocorrido na estação de Olinda, em Nilópolis.
Poucos dias depois, um intenso tiroteio entre Vigário Geral e Parada de Lucas causou transtornos aos usuários. Passageiros precisaram caminhar pelos trilhos durante a madrugada e realizar baldeações pela manhã para concluir o trajeto. O mesmo episódio também provocou interrupções na circulação dos trens na estação de Barros Filho, na Zona Norte.
A TrensRJ informou que aproximadamente 75 quilômetros de vias férreas necessitam de intervenções urgentes. Ao longo do período contratual, a empresa pretende promover uma ampla modernização da estrutura ferroviária, incluindo a substituição de 390 mil dormentes e a renovação de 68 mil metros cúbicos de brita utilizada na sustentação dos trilhos.
Neste início de operação, a prioridade será garantir a continuidade dos serviços sem interrupções e intensificar os trabalhos de limpeza em estações e trens.
Tarifa permanece a mesma
Apesar da troca de gestão, os passageiros não terão alterações imediatas no acesso ao sistema. O valor da passagem permanece inalterado, assim como os meios de pagamento já utilizados pelos usuários. A tarifa social de R$ 5 continuará válida. Os horários de circulação e chegada dos trens podem ser consultados por meio dos canais oficiais da TrensRJ.
Fim da era SuperVia
Em publicação divulgada na rede social X, a SuperVia confirmou oficialmente sua saída da administração do sistema ferroviário e agradeceu a participação de passageiros, funcionários e parceiros ao longo dos anos.
Durante sua trajetória, a concessionária foi alvo de diversas reclamações relacionadas à qualidade dos serviços prestados e acumulou autuações e multas. Em março deste ano, a empresa foi notificada pelo Procon após uma falha técnica provocar uma explosão seguida de princípio de incêndio na estação de Quintino.
Já em 2025, outra fiscalização identificou diversas irregularidades, entre elas elevadores e escadas rolantes sem funcionamento, infiltrações em instalações e falhas na fiscalização dos vagões destinados ao público feminino, resultando em nova autuação do órgão de defesa do consumidor.
Usuários esperam melhorias
Com a chegada da nova concessionária, passageiros que dependem diariamente do transporte ferroviário manifestam expectativa por avanços na qualidade do serviço.
Moradora de Austin, em Nova Iguaçu, a cuidadora Josélia da Conceição, de 49 anos, afirma que uma das principais necessidades é a ampliação da oferta de banheiros nas estações.
Segundo ela, embora a viagem tenha ocorrido sem problemas neste sábado, muitas unidades não contam com sanitários disponíveis. Josélia também reclama do fechamento dos banheiros em determinados períodos, como ocorre em Deodoro nos fins de semana, e defende que os espaços permaneçam acessíveis durante todo o horário de funcionamento para atender adequadamente os passageiros.
O comerciante Vandergil Fernando, de 37 anos, destaca a necessidade de reforço na segurança e na fiscalização, especialmente na estação de Marechal Hermes, que utiliza com frequência.
Ele relata preocupação tanto com o estado de conservação de algumas composições quanto com o aumento dos assaltos registrados no período noturno. Para o comerciante, os riscos vão desde acidentes provocados pelas condições dos vagões até ações criminosas praticadas dentro dos trens.
Vandergil também questiona o horário de funcionamento da bilheteria na estação. Segundo ele, embora o último trem parta às 22h08, a cabine encerra o atendimento por volta das 21h45, dificultando o acesso de trabalhadores que dependem do transporte para retornar para casa. Na avaliação do passageiro, o atendimento deveria permanecer disponível até o horário final de circulação.








